sábado, 13 de setembro de 2014

A revolta


Em 22 de novembro de 1910 uma semana após a posse do presidente Hermes da Fonseca, mais de 200 mil marinheiros se rebelaram e tomaram quatro navios de guerra na baía de Guanabara. Durante seis dias os canhões dos navios foram apontados para a cidade do Rio de Janeiro, que naquela época tinha 870 mil habitantes. Tiros chegam a ser disparados e duas crianças foram mortas.

A revolta tinha como um dos comandantes o marinheiro João cândido, que mais tarde passou a ser chamado de Almirante negro. Ele liderou o Encouraçado Minas Geraes. O motim se deu por questões de castigos corporais e falta de estrutura para trabalhar, como alimentação ruim e horários de trabalho pesados. O estopim que deu inicio a revolta foi o castigo dado ao marinheiro Marcelino Meneses. Após uma falta grave (ter entrado com cachaça a bordo) Marcelino teria levado 250 chibatadas.

Reivindicações


Um dia após a proclamação da república em 16 de novembro de 1889 o ministro da marinha, Almirante Eduardo Wandenkolk decidiu extinguir os castigos corporais. Mas seis meses depois os oficiais da marinha cobraram novas leis para disciplina a bordo. O ministro então decidiu retomar o castigo físico. O marinheiro indisciplinado além de chibatadas poderia ter o salario reduzido, ser rebaixado de cargo, preso e ser humilhado. Conforme o decreto que criou a Companhia Correcional, responsável pela determinação da natureza dos castigos. A revolta da chibata exigia a revogação do decreto e o fim dos castigos corporais, algo que foi relatado numa carta enquanto os canhões dos navios ainda estavam apontados para terra, os marinheiros enviaram uma carta com suas exigências ao Governo.
Eles reivindicavam por: Demitir os oficiais incompetentes que de acordo com os marinheiros eram despreparados para a função; extinção dos castigos físicos aos marinheiros; aumento do salário; educar os marinheiros que entram na marinha despreparados; mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário e anistiar os participantes da revolta.
Os marinheiros deram apenas 12 horas ao governo do presidente Hermes para que as suas exigências fossem atendidas.

Os navios


No início do século XIX a marinha do Brasil deu início ao um programa de modernização tecnológica e de aquisição de embarcações, visando reforçar a esquadra. Ela adquirira 14 dos navios mais modernos do mundo, mais até que a Inglaterra, que tinha na época a força naval mais bem equipada. Enquanto os ingleses construíam o encouraçado o Brasil encomendava 3, que foram chamados de encouraçado: Minas Geraes, São Paulo e Bahia.

O nível técnico dos marujos acostumados com navios a vela não acompanhou a modernização. O recrutamento era feito de maneira errada, a maioria dos recrutados eram pessoas de classe mais baixa, mesmo os que entravam nas escolas profissionais da marinha não saiam completamente aptos para o trabalho. Boa parte dos marinheiros era homens negros ou pardos e não eram alfabetizados.

Exercícios para Compreensão

(Enem – 2010)

O mestre-sala dos mares

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam nas costas
dos negros pelas pontas das chibatas...

BLANC, A; BOSCO, J. O mestre-sala dos mares. Disponível em: www.usinadeletras.com.br. Acesso em: 19 de jan. 2009)

Na história brasileira, a chamada Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, e descrita na música, foi

O manifesto dos marinheiros


Os marinheiros revoltados escreveram um manifesto e o enviaram ao presidente da República Hermes da Fonseca.

"Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira, à falta de proteção que a Pátria nos dá [...]; rompemos o véu negro que nos cobria os olhos [...]. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a bordo, prisioneiros, todos os oficiais, os quais têm sido causadores da Marinha brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V.Exª. Faça aos marinheiros brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilitam [...] Reformar o código imoral e vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo e outros castigos semelhantes; aumentar nosso soldo [...] Tem V.Exª. o prazo de 12 horas para mandar-nos resposta satisfatória, sob penas de ver a Pátria aniquilada."

Navios modernos e regimento arcaico


No início do século XX, a Marinha de Guerra brasileira era uma das mais bem-equipadas do mundo, mas seu regimento disciplinar era severo e totalmente ultrapassado, como nos mostra o decreto de 1890.

Art. 1º. – A Companhia Correcional tem por objeto submeter a um regime de disciplina especial os praças que forem de má conduto habitual e punir em casos que não exijam conselho de guerra.
[...]
Art. 8º. – Pelas faltas que cometeram, serão punidos do seguinte modo:
a) faltas leves: prisão e ferro na solitária, a pão e água por três dias.
b) faltas leves repetidas, idem por seis dias.
c)faltas graves: 250 chibatadas

Posição do Governo Quanto à Revolta


No início do século XX a maior parte da marinha eram trabalhadores negros, mulatos, escravos libertos e filhos de ex-escravos. Suas condições de trabalho eram precárias, pois os marinheiros tinham baixa remuneração, recebiam péssima alimentação durante longas viagens de navio, e o mais grave, caso desobedecessem alguma regra, sofriam punições corporais. Com a proclamação da República, em 1889, as punições foram revogadas, sendo assim, o salário diminuiu, o cativeiro em prisão solitária de três a seis dias, para faltas leves, e as 250 chibatadas para faltas graves.

Isso revoltava centenas de marujos, que durante 1908 e 1909 se organizaram em busca de um acordo de reformas trabalhistas com o governo. No dia 21 de novembro, o marinheiro Marcelino Rodrigues, acusado de embarcar com cachaça, recebeu 250 chibatadas.

Diante disso ocorreu o início da revolta, e foi enviada uma carta ao governo reivindicando melhorias de trabalho e as modificações na legislação penal e disciplinar, dando maior ênfase na extinção das chibatas, Com os navios tomados pelos marujos e seus canhões apontados para a cidade do Rio de Janeiro, o governo, se sentindo ameaçado, cedeu às pressões deles e em 27 de novembro de 1910, a chibata foi abolida da Marinha de Guerra do Brasil. Os marinheiros confiaram no Presidente Hermes da Fonseca e entregaram suas armas e os navios rebelados, mas com o término do conflito o governante não cumpriu com a sua palavra e baniu alguns marinheiros da marinha, outros tantos morreram e João Cândido foi aprisionado e atirado em um calabouço na Ilha das Cobras.